Limiar
Sei que precisamos de viver no mundo real. Mas, afinal, o que é o mundo real? Sempre afirmei que amo a vida e continuarei a pensar assim, mas que somos peças de um jogo árduo, ah, isso somos. Quem me dera apenas ser, viver numa floresta com vista para as montanhas. Todas as manhãs, abrir a janela e escutar o correr de um rio, enterrar os pés na erva húmida e dançar ao som das aves.
Mas, como tenho de viver neste plano, estou sujeita a escutar diversas vozes. Hoje, a voz mais alta que ouvi na Terra foi a de um pássaro bem estranho, que comparou um casal da sua própria espécie a algo abaixo dos macacos. Imune à lei que considera o racismo um crime, não foi penalizado e anunciou, sem hesitação, que jamais pediria desculpa.
Há palavras que não terminam quando são proferidas. E talvez seja isso o que mais me perturba: a forma como algumas são lançadas ao mundo e nele permanecem, sem peso para quem as disse, mas com peso para quem as ouve. Desejo muito que os alvos tenham armadura forte para ignorar. Vozes assim merecem apenas que as suas palavras batam num muro e façam ricochete contra elas próprias.
Tentei desligar-me daquilo que me mantinha incrédula e revoltada. Para preservar a sanidade, necessito de regressar à floresta, muitas e muitas vezes.
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